- Faixa etária
- 11–12 anos
- Idioma
- Português (Brasil)
- Detalhes do livro
- 42 páginas
- Lista de capítulos e estrutura
- 7 capítulos
- Formato
- Somente texto
Conteúdo pensado para cada faixa etária
O Cartão-Postal Não Enviado
Resumo da história
Numa cidadezinha nova à beira-mar, Helena sente a distância da velha amiga crescer e encontra um verão novo numa oficina de bicicletas.
Primeiro capítulo grátis
A Última Caixa
A fita da última caixa se soltou com um rasgo seco. Fazia três semanas que a caixa estava atrás da porta, esperando ser aberta. Helena segurou o papelão em cima dos joelhos e olhou lá dentro. Na lateral, com a caneta grossa da mãe, estava escrito "HELENA – QUARTO – INQUEBRÁVEL". A palavra inquebrável tinha sido sublinhada duas vezes, como se os carregadores não fossem acreditar de outro jeito.
Por cima de tudo estavam os livros. Encostados uns nos outros pela lombada, tinham entortado um pouco na viagem. Helena foi tirando um por um e enfileirando no chão. Na capa de cada um havia a poeira do quarto antigo, fina e cinzenta. Ela passou o dedo para limpar e depois desejou não ter limpado.
Embaixo deles havia um estojo, um bolo de fios embolados e um caderno pela metade. Na última página do caderno estava a letra da Júlia. Era uma lista que as duas tinham escrito no recreio: dez coisas para fazer nas férias de verão. O terceiro item era "ir de bicicleta até a ponte". Nenhum deles tinha um tique do lado.
Helena fechou o caderno e colocou no meio dos livros, num lugar qualquer lá pelo meio. Não queria jogar fora. Também não queria olhar. O meio era um bom lugar, entre as duas vontades.
Bem no fundo, espremido entre os livros, encontrou um cartão-postal. Tinha comprado na balsa, no expositor giratório ao lado da lanchonete. Na frente havia um mar azul e um farol branco. O verso estava completamente vazio, e até as linhas do endereço eram de um cinza apagado.
Ia escrever para a Júlia. Tinha prometido antes da mudança, no cais, logo antes de a balsa partir. Naquele dia, Júlia tinha segurado o braço da Helena com as duas mãos e dito: "Toda semana. Mas não pelo celular. Uma coisa de verdade, escrita à mão."
Júlia tinha chorado naquele dia. Helena não. Nem quando soltaram as amarras, nem enquanto acenava. Depois, no convés da balsa, quando a mãe foi buscar um chá, ela chorou sem que ninguém visse. O vento empurrava as lágrimas das bochechas na direção das orelhas. O cartão estava no bolso dela naquela hora, e foi por isso que o canto ficou dobrado.
Helena deixou o cartão no canto da escrivaninha. Bem no canto, com as bordas alinhadas às bordas da mesa.
O quarto ainda tinha um leve cheiro de tinta. As paredes eram brancas, brancas demais, como se ninguém nunca tivesse morado ali. Na parede do quarto antigo havia um furo de prego e um risco de canetinha que ela tinha feito aos sete anos. A mãe passou anos tentando apagar aquele risco, depois desistiu. Aqui não havia risco nenhum.
A mãe estava no corredor, às voltas com as peças da estante. Cada vez que a chave Allen encaixava no parafuso, saía um rangidinho. Lá pelas tantas, ela chamou: "Helena, segura esta tábua para mim?"
Helena foi e segurou. A mãe tinha uma risca de poeira na testa, e uma mecha de cabelo tinha escapado da presilha. As duas trabalharam um tempo sem falar. Enquanto apertava o parafuso, a mãe olhou para ela uma vez. Pareceu que ia dizer alguma coisa, depois desistiu e continuou girando a chave.
"A janela dá para o mar", disse por fim. "Ainda não me acostumei."
"Hum."
"Na casa antiga, você via a sacada do prédio da frente. As roupas no varal, o motor do ar-condicionado."
Helena deu de ombros. Na sacada do prédio da frente havia um homem que fumava todas as noites. Helena nunca tinha acenado para ele, e ele nunca tinha acenado para ela. Mesmo assim, ela gostava de saber que ele estava lá. Agora, na frente da janela, só havia o mar, e o mar não era de ninguém.
"Eu sei", disse Helena. A voz saiu mais dura do que ela queria.
A mãe não disse nada. Colocou o último parafuso e empurrou a estante até encostar na parede. Helena ouviu a própria voz de novo dentro da cabeça, e o rosto esquentou. Sabia que a mãe também não tinha vindo porque queria. O trabalho da mãe tinha sido transferido para lá, para o pequeno hospital da cidade. Na noite em que soube disso, Helena se trancou no quarto e ainda bateu a porta.
Quis pedir desculpas. Quando abriu a boca, só conseguiu dizer: "Em que caixa estão as minhas fronhas velhas?"
"Na azul", disse a mãe. A voz dela não tinha mudado. Guardou a chave no bolso e foi andando até as caixas na outra ponta do corredor.
Helena apalpou a lateral da estante com a mão. Estava firme, não balançava nada. A mãe sempre fazia bem essas coisas.
Abriu a caixa azul. As fronhas estavam por cima e ainda tinham o cheiro do sabão em pó da casa antiga. Helena apertou uma contra o rosto e ficou assim por um instante. Depois vestiu o travesseiro com ela e puxou os cantos. Aquele era o único cheiro conhecido no quarto agora, esse e o da própria pele.
Na primeira semana, Júlia escreveu todos os dias. De manhã chegava uma foto: o portão da escola, o misto-quente da cantina, uma carinha desenhada no vidro embaçado do ônibus. À tarde vinha uma piada, quase sempre imitando alguém da sala. E de noite, um áudio comprido.
Helena tinha ouvido cada áudio duas vezes. Na primeira, prestava atenção no que a Júlia dizia. Na segunda, nos barulhos do fundo. Estava tudo ali: o corredor da escola, a algazarra da cantina, o freio do ônibus do bairro antigo. Uma vez, reconheceu até a tosse do professor de matemática lá atrás. Tinha ouvido aquela tosse o ano inteiro, e agora, saindo do alto-falante do celular, ela ficou estranhamente feliz.
Na segunda semana, as mensagens encurtaram. As fotos continuavam chegando, mas sem nada escrito embaixo. As piadas viraram uma linha só. Os áudios não passavam de trinta segundos, e os barulhos do fundo foram sumindo.
Helena fingiu que não tinha percebido. Continuou mandando mensagens compridas. Contou da padaria da cidade, das gaivotas, do cheiro do quarto. Até que um dia olhou para o parágrafo que tinha escrito e viu que a resposta da Júlia era uma única carinha rindo.
Numa noite da terceira semana, Júlia escreveu "depois te escrevo". Do lado, tinha colocado uma carinha com sono.
Depois, não veio mais nada.
Durante três dias, Helena olhou o celular de manhã e olhou de novo à tarde. Hoje, no jantar, deixou o celular ao lado do prato, com a tela virada para cima. A mãe olhou para o celular, depois olhou para Helena, e não disse nada. Só empurrou a salada um pouco na direção dela.
O espaço vazio no canto de cima da tela parecia um pouco maior a cada vez. Não havia notificação, mas a falta de notificação também era alguma coisa. Uma coisa pesada, como uma pedra carregada no bolso.
Será que ela esqueceu, pensou. Ou será que está ocupada com coisas novas? Não conseguia decidir qual das duas era pior. Esquecer, pelo menos, era um acidente. Estar ocupada era uma escolha.
Abriu o celular e foi subindo pelas mensagens antigas. As da primeira semana eram enormes, enchiam a tela e transbordavam. Quanto mais ela descia, mais curtas ficavam, como quem desce uma escada. Lá embaixo, por último, estava a carinha com sono. Helena bloqueou a tela e largou o celular na outra ponta da cama.
De noite, sentou à escrivaninha e puxou o cartão para a frente. Do estojo, escolheu a caneta favorita, a preta de ponta fina. Ela e a Júlia tinham comprado canetas iguais, na papelaria, no mesmo dia. Tirou a tampa.
Segurou a caneta em cima do cartão. A ponta parou a um milímetro do papel.
Pensou em começar com "Querida Júlia". Era formal demais, como se estivesse escrevendo um requerimento. Pensou em "Oi, Júlia". Isso parecia as mensagens que elas trocavam todo dia, e um cartão merecia mais. Um cartão pedia selo, pedia caixa de correio, pedia uma viagem de vários dias. Seria esquisito fazer todo esse caminho só para dizer "oi".
O difícil mesmo era o que vinha depois. Ia escrever que não conhecia ninguém ali? Que o quarto era branco demais? Que a Júlia não escrevia fazia três dias? Se escrevesse isso, o cartão ia parecer uma reclamação. Se não escrevesse nada disso, ia parecer mentira.
E ainda tinha outra coisa: o cartão demorava para chegar. Fosse o que fosse que Helena escrevesse hoje, a Júlia só ia ler uma semana depois. Dali a uma semana, Helena podia ser outra Helena. Talvez menos sozinha, talvez mais. Mas a Helena de dentro do cartão ia continuar do jeito que estava, a Helena desta noite.
Helena não gostou dessa ideia. Depois gostou um pouco. Uma mensagem ficava velha no instante em que era enviada, e logo chegava outra por cima. Um cartão, não: ficava na estrada, e ninguém podia mexer nele. Nem Helena podia pegá-lo de volta, nem a Júlia podia ler antes da hora.
Fechou a caneta. Depois abriu de novo. Depois fechou outra vez. Cada vez que a tampa encaixava, fazia um clique pequeno.
Olhou o celular mais uma vez. A tela estava escura. Estendeu a mão, mas não ligou.
Empurrou o cartão de volta para o canto da mesa, no mesmo alinhamento. Na frente, o farol continuava branco e bem reto. O verso ainda estava vazio. Mas agora parecia que estar vazio queria dizer alguma coisa, como uma espera.
Helena se levantou e foi até a janela. O vidro estava fresco, e ela encostou a testa nele. A respiração deixou uma manchinha de vapor no vidro, que logo se apagou.
Lá embaixo passou uma moto, e o barulho subiu e desceu pela ladeira. Depois ficou só o vento de novo. Na casa antiga, a noite nunca era silenciosa. Os ônibus, um alarme tocando em algum lugar, a televisão do vizinho de cima. Helena tinha aprendido a dormir com esses barulhos sem nem perceber. Aqui o silêncio era tão grande que os ouvidos ficavam procurando alguma coisa para enchê-lo.
A cidade era pequena. Tinha um cais, uma padaria, uma farmácia e, no fim da rua, uma loja de porta de enrolar fechada. As casas de telhado vermelho se enfileiravam pela encosta, e as mais altas olhavam mais para o mar. Um vento salgado tinha soprado o dia inteiro. Agora tinha acalmado um pouco e só deixava um assobio fino no batente da janela.
Durante o dia, ela tinha ficado olhando as gaivotas. De manhã, elas gritavam em cima dos telhados, como se cada uma se gabasse de ter acordado antes das outras. À tarde, desciam até o cais e rodeavam os baldes dos pescadores. Um pescador velho balançou a cabeça para elas, mas mesmo assim deixou a tampa do balde aberta. Quando viu isso, Helena quase riu. Ninguém estava olhando para ela, e mesmo assim não riu.
Agora o cais estava vazio. Os mastros dos barcos balançavam de leve. As cordas rangiam em cima da água, como uma porta lá longe.
Embaixo do poste na entrada do cais, havia um gato sentado, com o rabo enrolado por cima das patas. Ficou um tempo olhando a água, depois se levantou e foi andando devagar para dentro do escuro. Helena ficou imaginando para onde ele ia. Nessa cidade, todo mundo, até os gatos, tinha algum lugar para ir.
Na ponta do cabo, o farol acendeu. Uma luz branca passou por cima do mar e sumiu. Helena começou a contar. Um, dois, três. No nove, a luz voltou.
Contou outra vez, e deu nove de novo. O farol tinha o seu próprio ritmo. Não esperava ninguém, nem pedia resposta de ninguém. Acendia, apagava e acendia outra vez.
Quando contou pela décima vez, Helena parou de contar. Já sabia, sem contar, quando a luz ia chegar. O corpo tinha aprendido sozinho.
Tentou lembrar se, de manhã, a porta de enrolar da loja no fim da rua tinha sido aberta. Achava que durante o dia tinha vindo um barulho de lá, como metal batendo em metal. Não tinha certeza. Os sons da cidade ainda não se separavam uns dos outros, eram todos um zumbido só: vento, gaivota, motor, onda.
A mãe bateu na porta. Trazia duas canecas nas mãos, e de uma delas vinha um cheiro de chá de tília.
"As caixas da cozinha ficam para amanhã", disse. "Hoje só achei os copos. Os pratos continuam desaparecidos."
Helena pegou a caneca. O calor se espalhou pelas palmas das mãos. A mãe sentou na beirada da cama e olhou pela janela, para o farol. O farol acendeu e apagou.
"Nove segundos", disse Helena.
"Então você contou."
"Dez vezes."
A mãe fez que sim com a cabeça. Por um tempo, as duas contaram juntas, não em voz alta, mas por dentro. Helena viu os lábios da mãe se mexendo quase sem se mexer. Dessa vez ela riu de verdade, um riso curto e sem barulho. A mãe também riu, mas nenhuma das duas disse do que estavam rindo.
"Agora há pouco eu falei com você de um jeito duro", disse Helena. "No corredor."
"Eu sei", disse a mãe. "E eu trouxe você para cá sem perguntar nada."
Helena olhou para a caneca. Em cima do chá subia um vapor fininho. Quando se levantou, a mãe tocou o cabelo da Helena uma vez.
"Me conta do hospital", disse Helena.
"É pequeno", disse a mãe. "Todo mundo se conhece. Hoje uma enfermeira me chamou pelo nome, e eu não sabia o dela." Deu de ombros. "Amanhã eu aprendo."
"As fronhas estavam na caixa azul", disse da porta. "Você achou."
"Achei."
A porta ficou entreaberta. A luz do corredor desenhou uma linha fina no chão.
Helena ficou um tempo sentada de pernas cruzadas em cima da cama. As beiradas do edredom novo estavam duras como se tivessem goma, ainda não estavam acostumadas ao corpo de ninguém. Ela alisou com a mão. Amanhã ia arrumar os livros na estante, e talvez o caderno também.
Helena terminou o chá de tília e deixou a caneca na escrivaninha, ao lado do cartão. O cartão estava lá, com o canto ainda um pouco dobrado. Talvez amanhã ela escrevesse. Talvez amanhã não escrevesse. Não precisava saber disso esta noite.
Pela janela, a luz do farol passou mais uma vez. Deixou um rastro pálido na parede branca do quarto e foi embora. Nove segundos depois, voltou.
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- 01
Capítulo 1
Grátis — ler - 02
Capítulo 2
Acesso necessário
- 03
Capítulo 3
Acesso necessário
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